Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

“Tudo como dantes no quartel d’Abrantes” - ARTIGO

11/06/2018
O que se pode dizer da cadeia produtiva de proteína animal do Brasil, diante desses novos acontecimentos? Pois também sobre esse segmento tão importante da nossa economia e que em muito contribui para que o agronegócio seja o sustentáculo da nação, em especial o início da cadeia continua contabilizando perdas quase irreversíveis, como é o caso da suinocultura.

CESAR DA LUZ

 

“Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”. Essa frase do início do século 19 continua bem atual em se tratando de Brasil. Dita pelo general Jean Androche Junot, braço-direito de Napoleão Bonaparte, quando esse invadiu a Península Ibérica, e mais conhecido pelo título de Duque d’Abrantes, era sempre ouvida quando lhe perguntavam como estavam as coisas no seu quartel-general, a 152 quilômetros de Lisboa, na margem do rio Tejo: nada havia mudado.

No Brasil do século 21, pouca coisa muda, se é que muda, e pode-se dizer que está tudo como antes, desde os tempos da Constituição Cidadã, em 1982, com a qual se esperavam avanços importantes para todos os setores da sociedade brasileira, mas que passados mais de 30 anos, essa mesma sociedade continua vendo os mesmos personagens, os mesmos grupos políticos e os mesmos clãs familiares ditando as coisas no país.

Gigante pela própria natureza e extensão territorial, quando o verdadeiro Brasil resolve acordar, como numa manifestação justa, que começou de forma ordeira, legal e com bons propósitos que foi a paralisação dos caminhoneiros, até terminar no quase desabastecimento da nação, vê-se que tudo continua como antes e que houve poucos avanços nos objetivos do movimento, que ganhou adesão popular até se desgastar e por fim acabar. Enfim, nada ou pouco mudou, inclusive com aumento da gasolina em meio aos protestos em todo o Brasil. Se Pedro Parente saiu da Petrobrás, ele também saiu de tantos outros cargos que ocupou na história recente do Brasil, e nunca conseguiu deixar o Brasil em melhor sorte.

Nesse contexto, o que se pode dizer da cadeia produtiva de proteína animal do Brasil, diante desses novos acontecimentos? Pois também sobre esse segmento tão importante da nossa economia e que em muito contribui para que o agronegócio seja o sustentáculo da nação, em especial o início da cadeia continua contabilizando perdas quase irreversíveis, como é o caso da suinocultura.

O custo de produção supera ao preço de venda do suíno vivo e os produtores que ainda resistem na atividade, fazem milagres para manter seus negócios e evitar que a massa de 14 milhões de desempregados receba também os que, inevitavelmente se algo não ocorrer, deixarão seus empregos nas granjas de suínos do Brasil, começando pelas que operam no mercado spot. Enquanto isso, as empresas integradoras e os produtores integrados continuam, por sua vez, num processo que não tem melhores condições para avançar e dar mais alento a quem produz.

De maneira prática e objetiva, exatamente quando o mercado está desabastecido e numa época do mês em que os salários ingressam na economia e que o consumidor refaz seus estoques mensais, o preço de venda do suíno ainda sofre para chegar num ponto de equilíbrio na relação custo de produção e preço de mercado. Ao meu ver, também continua como antes, ou seja, com muito aproveitamento em cima do produtor. Afinal, não consigo imaginar que diante de um desabastecimento, não haverá aumento de preços nas gôndolas, enquanto o produtor continuará amargando e amargurado em sua atividade no início da cadeia produtiva, sendo sempre o mais afetado em todas as ocasiões, inclusive com preço dos grãos (milho e farelo de soja) em alta, como os demais insumos. No caso dos suínos, a referência maior para o mercado é o preço da Embrapa Aves e Suínos, na faixa dos R$ 3,80, mas ainda assim o produtor é forçado a aceitar valores abaixo disso. Algo precisa ser feito nesse setor, pois caso contrário, também nesse caso, “estará tudo como antes”, mas não no quartel d”Abrantes, e sim nas granjas do Brasil.

 

CESAR DA LUZ é jornalista, diretor do Grupo Paraná Mais de Comunicação. Escreve sobre Agronegócio, em especial sobre a cadeia de produção de proteína animal no Brasil.

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