Quinta-feira, 20 de junho de 2019

Sem exportar para a Rússia, suinocultura vive grave crise

18/06/2018
Diferentemente dos torcedores que estão de olho na Rússia em razão da Copa do Mundo, o mercado de suínos do Brasil está de olho no retorno das exportações do Brasil para os russos, responsáveis por 40% do volume exportado de carne suína brasileira. A suspensão das importações da Rússia em novembro do ano passado é um dos fatores que contribui para agravar a crise da atividade.

CESAR DA LUZ

 

Em tempos de Copa do Mundo na Rússia, quando o mundo se volta para o país sede do maior evento na história do futebol, o mercado de suínos do Brasil também está de olho na Rússia, porém, por outra razão: a liberação das exportações de carne suína brasileira para aquele país, suspensas desde novembro do ano passado. Apesar de vários anúncios de que voltariam a importar o produto do Brasil, já se passaram mais de seis meses e isso ainda não aconteceu. Desde que as exportações foram suspensas, a suinocultura nacional entrou em queda livre e vive mais uma grave crise, com vários fatos complicadores.

No caso das exportações para a Rússia, elas representam cerca de 40% do volume exportado de carne suína brasileira e, dessa forma, os impactos no mercado interno, somados a outros fatores, deixam as granjas à beira do caos. Mas a suspensão das exportações para os russos não é o único problema do suinocultor brasileiro, que vive uma sucessão de fatos que agravam sobremaneira a vida nas granjas, com constantes crises nos últimos anos. A de 2016, por exemplo, provocada pela quebra na safra do milho, com aumento do preço do grão, sepultou de vez a margem do produtor de suínos.

Nessa somatória de problemas enfrentados pelo suinocultor se inclui a Operação Carne Fraca em março de 2017, e a consolidação dos preços dos dois principais componentes da ração animal, o milho e o farelo de soja, em patamares que elevaram o custo de produção acima de um nível suportável a quem produz proteína animal sob as atuais condições de mercado.

A situação só não é mais grave ainda porque a menor oferta de animais pesados para abate e a procura para normalização de estoques depois do desabastecimento pela paralisação dos caminhoneiros provocaram uma recuperação do preço do suíno vivo no mercado interno, embora bem lentamente.

 

PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS

 

A propósito, a recente paralisação dos caminhoneiros agravou a situação já caótica do produtor de suínos do Brasil, gerando grandes prejuízos e imensos transtornos, com problemas de abastecimento nas granjas e consequente perda de eficiência dos planteis. Mesmo com o produtor reduzindo em até 50% a ração diária dos seus animais e evitando mortes nas granjas, a falta de ração e insumos provocou a perda de peso dos animais e afetou o índice de eficiência de forma considerável, com enormes prejuízos na hora da entrega dos lotes.

O produtor Jacir Dariva, das Granjas Dariva, localizadas no sudoeste do Paraná, que na condição de presidente da Associação Paranaense dos Suinocultores esteve à frente das negociações para liberar caminhões com rações e insumos durante todo o movimento dos caminhoneiros no Paraná, observa que “em razão da redução da alimentação e com ração não específica para a fase em que o animal se encontrava, houve uma grande mortalidade em leitões em várias granjas do estado. Os animais sofreram alterações em seu aparelho digestivo, uma vez que não tiveram a alimentação adequada para a fase de vida que se encontravam”, explica Dariva.

Diante disso, o primeiro semestre de 2018 foi de novos prejuízos, cujas perdas estimadas em São Paulo ultrapassaram R$ 30 milhões nos primeiros cinco meses do ano. Nos demais estados produtores, como Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, por exemplo, a situação não é diferente e se estima que os prejuízos relacionados aos índices de eficiência da produção em decorrência da paralisação dos caminhoneiros estejam no patamar dos produtores paulistas.

Para se ter ideia da extensão do problema, o prejuízo para o produtor, por animal abatido, no pior momento da atual crise, girou entre R$ 60,00 e R$ 100,00. “Somente o estado do Paraná deve ter abatido um volume em torno de 4 milhões animais que foram comercializados com um prejuízo em média de R$ 70,00 por animal, o que já dá para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo para a suinocultura paranaense”, ressalta Jacir Dariva.

Em razão de toda a conjuntura vivida pela atividade, a terceira semana do mês de junho se encerrou com o quilo do suíno vivo cotado no Rio Grande do Sul a R$ 3,35 no mercado independente e a R$ 2,87 em média, posto na indústria, no setor de integração. Em Santa Catarina, as vendas não aconteceram em melhores condições, apesar da Bolsa de suínos catarinense apontar R$ 3,60 o quilo, enquanto que o Paraná e São Paulo, que tentaram puxar o preço para a faixa dos R$ 4,00 estabelecido como preço referência, o mercado também não foi favorável ao produtor. Em São Paulo, a arroba suína foi comercializada a R$ 70,00. Para vendas fora do estado, ainda incidem 6% de ICMS, nos casos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e o produtor precisa arcar também com o frete, que acaba de ter alta em consequência do movimento dos caminhoneiros.

Quanto às exportações, desde o embargo russo às carnes brasileiras, China e Hong Kong se estabeleceram como os maiores destinos dessa proteína animal, sendo que de janeiro a maio deste ano, esses países asiáticos receberam 56,2% das exportações nacionais. Somente no mês de maio, China e Hong Kong ampliaram as compras em 41,9% e em 55,6%, respectivamente.

 

ENTENDENDO O PROBLEMA

 

Apesar de complexo e cheio de complicadores, o problema de quem produz suínos no Brasil é de fácil entendimento: não há margem para o produtor, que vende seus animais com preço abaixo do custo de produção. A saca de milho se consolida na faixa entre R$ 40,00 e R$ 42,00, e o farelo de soja em R$ 1.560,00 a tonelada (cotação de junho na região Sul), sendo ambos os principais componentes da ração animal. Já o suíno vivo não consegue recuperar seu preço de venda, hoje na faixa entre R$ 3,30 e R$ 3,60 o quilo, muito aquém do necessário e abaixo do custo de produção, sem qualquer margem para o produtor. Isso justifica o desespero nas granjas, mesmo para o produtor que desenvolve suas atividades pelo sistema de integração, pois não consegue ver avanços em sua atividade. E nem todos os produtores integrados são verticalizados, ou seja, também precisam arcar com os custos de produção, como é o caso dos que mantém contrato com as cooperativas.

 

DÍVIDAS E FLUXO DE CAIXA

 

Diante desse cenário de coisas, o produtor com dívidas de custeio ou de empréstimos contraídos ainda em épocas de investimentos nas granjas está além da faixa do desespero e não consegue sequer pagar o percentual da entrada exigida pelos bancos nas renegociações, enfrentando ainda graves problemas de fluxo de caixa. Um pingo de esperança é uma possível repactuação de dívidas, com dois anos de carência e dez anos para pagar. Caso isso se confirme, talvez seja a medida que permita ao produtor se manter na atividade. Do contrário, muitos terão que abandonar a suinocultura, levando consigo enormes dívidas e a negativação de seus nomes, além de provocarem desemprego em massa nas granjas.

 

COMPARAÇÕES

 

Em uma análise sobre os últimos períodos da atividade, alguns produtores fazem questão de lembrar que há dois anos o preço médio praticado pela arroba suína chegou a R$ 76,00, e que há um ano o preço ainda se mantinha numa faixa razoável, em R$ 74,00. A vantagem é que a saca de milho à época estava cotada abaixo de R$ 30,00, chegando a ser comprada a R$ 26,82 (preço neste mesmo período, em 2017). Ou seja, com uma arroba suína era possível comprar quase 2,5 sacas de milho. Hoje, mesmo com a arroba suína cotada em R$ 70,00 em São Paulo, a saca de milho está entre R$ 42,00 e R$ 44,00, ou seja, uma arroba compra pouco mais de 1,5 saca de milho. Nessa mesma análise para um comparativo entre o preço da arroba suína e o da saca de milho, o preço da arroba atualmente deveria estar entre R$ 112,00 e R$ 123,00, o que equivaleria a R$ 6,00 o quilo do suíno vivo, algo praticamente impossível e improvável de ocorrer no atual momento do mercado de suínos.

 

O FATOR RÚSSIA

 

Na opinião do presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (ACSURS) e diretor da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), Valdecir Folador, a liberação das exportações para a Rússia é a única medida mais significativa na tentativa de se reverter o atual quadro da suinocultura brasileira, para dar certo alento ao produtor.

“Não vejo outra opção para resolver de forma mais rápida, neste segundo semestre, o problema de preço do suíno, do que o retorno imediato das exportações para a Rússia, que é a única saída imediata para esta crise. Os preços do milho e do farelo de soja estão estabelecidos e somente se voltarmos a exportar para os russos poderemos recuperar nosso preço, fazendo com que o produtor volte a respirar um pouco. É uma situação que preocupa a todos os segmentos da suinocultura, sejam do mercado livre, independente, ou do sistema integrado, verticalizado ou não”, frisa Valdecir Folador.

Para ele, dentre os demais complicadores está a paralisação dos caminhoneiros, o que agravou o problema nas granjas, pois influenciou diretamente na queda da produtividade, com redução dos índices de eficiência na hora da entrega dos lotes. “Enquanto o produtor lutava para evitar mortes de animais por falta de alimentos, reduzindo ao máximo a ração diária, já sabia que isso iria influenciar, como de fato influenciou, diretamente no peso e nos índices de produção, gerando grandes prejuízos na hora da venda dos seus animais”, diz Folador, que estima um prejuízo para os produtores gaúchos em torno de R$ 20 milhões, somente em razão da baixa de peso dos seus animais, enquanto a situação não se normalizava. “O prejuízo é muito maior se considerada toda a cadeia produtiva, com transtornos para todos os elos da produção”, acrescenta.

 

CRESCIMENTO RESPONSÁVEL, COM PREVISIBILIDADE DE CONSUMO

 

Outro fator importante a ser analisado em termos de suinocultura nacional são os investimentos de grandes grupos em ampliações de suas plantas frigoríficas voltadas para abates de suínos no Brasil. Se por um lado isso pode ser visto como algo que fomente à atividade, de outro lado as lideranças suinícolas destacam a necessidade de se fazer um crescimento responsável no setor, com previsibilidade de consumo.

“A cadeia produtiva de suínos no Brasil precisa olhar com cautela para os grandes projetos do setor e defender um crescimento responsável e dentro de uma previsibilidade de consumo futuro. Lá fora, o mercado é bem disputado e aqui o consumo ainda não chegou num nível desejado, apesar dos aumentos nos últimos anos e de todo o marketing da carne suína no Brasil”, ressalta Valdecir Folador.

Caso não haja mercado para colocar toda a produção prevista após a conclusão desses novos investimentos nas unidades frigoríficas do Brasil, teme-se que haja problemas para a parte inicial do processo produtivo, nas granjas. “Quem mais perderá será o produtor, e depois os demais elos da cadeia. Por isso, precisamos crescer com responsabilidade e ampliar de acordo com a previsão de aumento da procura por nosso produto. O ideal é buscar novos mercados lá fora e aquecer o mercado interno”, complementa Folador.

 

"TRAPALHADAS DO GOVERNO"

 

Por fim, um fato que não deixa de ser percebido pelo setor do agronegócio, incluindo a suinocultura, é a influência negativa de medidas e ações governamentais no mercado e os reflexos negativos da atual crise política e econômica no Brasil, que se arrasta nos últimos anos e não consegue se reverter a curva em declive.

Para o presidente da Associação Paranaense de Suinocultores, Jacir Dariva, “o produtor não precisava pagar por todos as trapalhadas que o governo promoveu no mercado de carnes, incluindo a desastrosa Operação Carne Fraca em março do ano passado. Houve enormes prejuízos para quem está no mercado de produção de proteína animal com aquela operação e agora, mais recentemente, com a questão da carne de frango, com embargos feitos pelo próprio governo brasileiro, prejudicando as relações com o mercado exterior”, diz ele, ao observar que um volume muito grande de carne deixou de ser exportada, com repercussões diretamente no mercado interno. “As fontes de proteína animal acabam concorrendo entre si, provocando uma situação que não é salutar a nenhuma cadeia”, acrescenta.

Dentre as questões relacionadas diretamente à suinocultura do Paraná, o presidente da entidade que representa os criadores de suínos do estado defende que seja rapidamente resolvida a situação do status sanitário do Paraná. “Esse processo de elevação do nosso status sanitário precisa chegar ao seu término o mais rápido possível, para que tenhamos mais opções lá fora para a carne suína do Paraná. O mundo precisa confiar mais em nossa sanidade, que já está elevada, mas que precisa de reconhecimento por parte da Organização Mundial da Saúde Animal, e isso o mais rapidamente possível”, conclui Jacir Dariva.

 

(CESAR DA LUZ é jornalista corporativo, escritor, consultor e palestrante, Diretor do Grupo Paraná Mais de Comunicação)

 

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