Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

SUINOCULTURA: Do caos à transformação, qual o caminho a seguir?

06/02/2019
A situação do suinocultor pode se resumir na resposta à pergunta sobre qual o caminho a ser seguido para sair do caos e chegar a um resultado satisfatório em termos financeiros, decorrente talvez dessa transformação urgente e necessária da atividade.

* CESAR DA LUZ

 

A suinocultura está entre o caos e a necessidade de transformação da atividade. Nos últimos dias houve o agravamento da crise dos últimos anos, com altos custos de produção e baixo preço do animal destinado ao abate. A solução ainda está longe no horizonte, e pode-se afirmar que a sobrevivência das granjas de suínos está novamente sob risco, com iminente abandono da atividade por parte de muitos produtores que há anos desenvolvem seus negócios, passados de geração para geração.

As entidades que representam o produtor trabalham no sentido de promover uma transformação da suinocultura numa atividade que permita melhores margens, incluindo nesse processo uma visão mais apurada do mercado e a adoção de medidas que organizem a comercialização de suínos no mercado independente. Também, que garantam uma melhor remuneração ao produtor integrado, sem prejuízos às integradoras.

A situação do suinocultor pode se resumir na resposta à pergunta sobre qual o caminho a ser seguido para sair do caos e chegar a um resultado satisfatório em termos financeiros, decorrente talvez dessa transformação urgente e necessária da atividade. Afinal, é preciso que os esforços de quem produz sejam devidamente recompensados, sem prejuízos para a agroindústria ou ao consumidor, que continua apreciando a carne suína e querendo tê-la em sua mesa.

Até o momento, os esforços do criador de suínos têm sido em vão, pois o preço continua sem margem, muito abaixo do custo de produção. E se a situação do produtor independente está próxima da inviabilidade do negócio, quem produz pelo sistema de integração também está se descapitalizando, tendo baixa remuneração na atividade.

Aos produtores independentes do Paraná e de Santa Catarina, maiores produtores de suínos do Brasil, resta como alternativa para salvar seus negócios, a proposta de uma organização da venda dos animais, com volume pré-definido semanalmente e preço devidamente acordado entre os produtores. É uma espécie de bolsa estadual de suínos, que ofertaria animais apenas sob a garantia de um preço de acordo com as necessidades do produtor. Uma vez que precisa vender seus lotes no fim de cada ciclo, sem um meio que organize a forma como comercializa seus animais, o produtor continuará vendendo por um preço que sequer cobre os custos de produção, estando fadado à falência.

Nos últimos dias de janeiro e neste início de fevereiro, os preços voltaram a cair em todas as regiões. No mercado paulista, o preço final não passa de R$ 3,30. No frigorífico, a cotação está em R$ 3,60/3,65, mas descontados os valores de frete, tributos e a quebra, o preço quase não chega a R$ 3,30 por quilo do suíno vivo. E a carcaça suína também está com preço muito baixo.

A ideia proposta por algumas lideranças do setor, como o presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Di Lorenzi, seria criar uma bolsa estadual de suínos, iniciando talvez com um pequeno grupo de produtores e ir avançando na sequência. Mesmo que demore um pouco para a situação se alinhar, o certo é que essa melhor organização na hora de vender sua produção poderá trazer certo alento ao produtor.

Para quem produz pelo sistema integrado, a expectativa é de que o cumprimento da Lei da Integração, com a atuação das Comissões de Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação, as chamadas CADECs, nas respectivas unidades produtoras, melhore a relação entre as partes, sem prejudicar integrados e integradoras.

Paralelamente ao que está ocorrendo com a suinocultura nacional, é necessário destacar a necessidade de que os novos governantes, em Brasília e nos estados produtores, se inteirem rapidamente da situação da atividade e mesmo que não façam milagre ou alguma mágica em socorro do produtor, que ao menos trabalhem para a retomada da economia, o que já favoreceria o consumo.

O produtor acredita que o rompimento com a velha política e todo o lamaçal de corrupção que provocou a grave crise econômica, política e moral que se instalou no Brasil, trará novos tempos ao País. Aliás, não fosse essa ruptura, certamente o futuro do Brasil estaria comprometido e o desenho do que viria nos próximos anos é fácil de ser visualizado, basta ver o que está acontecendo na vizinha República Bolivariana da Venezuela, com todas as mazelas provocadas pelo governo de Nicolás Maduro.

Voltando-se ao cenário atual do mercado suinícola, o desespero pegou ainda mais pesado nos últimos dias e para alguns produtores, na verdade, já se tornou uma calamidade que poderá levar à uma quebradeira geral. Estima-se que a persistir essa situação crítica restarão poucos na atividade, ou apenas as cooperativas e as grandes agroindústrias.

A bem da verdade, para sobreviver, como em qualquer outra atividade, o produtor de suínos ainda precisa evoluir um pouco mais e se atualizar em termos de gestão de negócio, participando mais das discussões da classe. E sabe que se organizar em grupos para comercializar seus animais poderá trazer benefícios. Precisa, também, ter uma leitura mais apurada do mercado, uma visão mais ampla que acompanhe todos os seus movimentos. Junto a isso, reconhecer que as mudanças na economia devem demorar ainda mais para acontecer, pois após anos a fio com problemas não haverá nenhuma solução rápida e imediata que possa reverter todo o problema econômico do Brasil.

A empolgação com o resultado das últimas eleições deve ser acompanhada, agora, de ações efetivas por parte do novo governo e da chamada nova política que se instala nos poderes Executivo e Legislativo. Mas para que os novos ares tomem conta de fato do País, haverá ainda um tempo de espera. Afinal, é preciso resgatar um modelo econômico que privilegie quem investe no seu negócio e que precisa ter uma melhor proteção, inclusive uma menor carga de impostos, atualmente espoliante. O governo e todo o aparato administrativo precisa estudar melhor cada ambiente de negócios, para que sejam tomadas medidas que protejam os setores produtivos, em especial a produção de alimentos e todas as suas cadeias, incluindo a suinocultura.

Ao fazer isso, o novo governo perceberá, através de órgãos como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que a produção de suínos aumentou nos últimos anos de forma indiscriminada, muitas vezes embalada por incentivos federais que privilegiaram apenas determinados grupos, em detrimento da própria atividade, haja vista que esses investimentos serviram mais como forma especulativa da atividade. Ou seja, os grandes grupos investiram sem se atentarem para a evolução da demanda do mercado interno e pensaram mais nas exportações. E isso acabou influenciando negativamente na atividade, trazendo ainda mais dificuldades para o pequeno e médio produtor. Enquanto os menores estão sendo praticamente engolidos pelos grandes, os mais fragilizados serão obrigados a abandonar a atividade. A pecuária bovina havia ensinado a lição da oferta e da procura, mas parece que a suinocultura não aprendeu.

Como contribuição do governo Bolsonaro, poderia estabelecer regras que controlassem a produção e leis de proteção e garantia de mercado ao produtor, em especial os de médio e pequeno portes, hoje prejudicados quando se privilegia apenas os mega projetos no Brasil.

Quanto à mencionada transformação da atividade, se ela não ocorrer, restará apenas o caminho do caos ao produtor que seguir sem uma comercialização organizada, sem visão de mercado, sem gestão profissional nas granjas e o problema se agravará ainda mais, pois continuará havendo sobra de produto no mercado. Os preços de venda continuarão menores até se comparados aos praticados há mais de dez anos. Ou seja, ao invés de avançar, a atividade está regredindo. Ainda que o Brasil atenda as questões sanitárias, incluindo o bem estar animal e a biosseguridade, o que garante uma produção de qualidade e dentro dos melhores padrões sanitários, os prejuízos ao produtor continuam se agigantando e o caos tomando conta do produtor.

Além de organizar a comercialização, o suinocultor precisa manter boas parcerias com os demais produtores da sua região e com os frigoríficos, de forma que todas as partes dividam responsabilidades, lucros e perdas. O amadorismo e as velhas práticas de gestão não têm mais espaço no mercado.

Negociações individuais como as que vêm ocorrendo não levarão a nada, e pouco representará para o produtor, cada dia mais desesperado. Não se pode também esperar milagres de parte do novo governo, que por um bom tempo ainda trabalhará com situações bem abrangentes em vários campos, até que as reformas tributária e da Previdência, por exemplo, avancem.

Apesar da chegada da nova política ao Brasil, há que se esperar ainda um bom tempo até que a economia reaja com mais vigor. E enquanto isso não acontece, ao produtor resta encontrar o caminho da transformação, evitando ser vítima do caos na atividade.

 

 

* CESAR DA LUZ, jornalista, escritor, consultor e palestrante, diretor do Grupo Paraná Mais de Comunicação. Contato: grupoparanamais@gmail.com

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