Segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A vida e os negócios da suinocultura em tempos de coronavírus

11/04/2020
Há quase duas décadas, especialistas já afirmavam que a questão não era se um vírus violento – como o da Covid-19 – iria provocar um quadro como o que estamos vivendo hoje, mas sim, quando e como isso iria acontecer.

Sua presença entre nós já era anunciada, porém, jamais desejada. Mas se estamos diante da pandemia do coronavírus, com graves efeitos jamais vistos pela atual geração, é preciso pensar em como seguir adiante sem maiores consequências. O problema é mundial e está impactando nosso modo de viver e de como encaramos a vida, e isso está afetando o cotidiano e os negócios de todos nós.

Para vivermos o pós-pandemia e evitarmos maiores sequelas, isso dependerá muito do que fizermos ou deixarmos de fazer agora para debelar a crise e tentar retomar à vida normal, se é que isso será possível em um curto espaço de tempo, em que pese o fato de se estarem trabalhando na produção de uma vacina e no protocolo de um tratamento adequado, quem sabe à base da tão comentada cloroquina.

Em meio às chamas de um grande incêndio, é certo que sempre sairemos chamuscados, no entanto, podemos também sair vivos e até fortalecidos, aprendendo com esta dura experiência humana, e mesmo com cicatrizes pelo corpo não vamos deixar nos abater pelo quadro instalado no planeta desde que o vírus surgiu na China no último dia de 2019.

Aliás, uma pandemia provocada por um vírus já estava anunciada há anos. Em 2003, a revista médica “Vaccine”, periódico científico inglês especializado em Ciências da Saúde, já noticiava que haviam-se passados 35 anos desde a última pandemia de influenza, e que o período mais longo já registrado com precisão entre duas pandemias era de 39 anos. A revista destacava: “O vírus causador de pandemia pode surgir na China ou num país vizinho e pode incluir antígenos e características de virulência provenientes de vírus que atacam animais”, exatamente como o coronavírus.

Ou seja, há quase duas décadas, especialistas já afirmavam que a questão não era se um vírus violento – como o da Covid-19 – iria provocar um quadro como o que estamos vivendo hoje, mas sim, quando e como isso iria acontecer. E a certeza era que a cada 11 anos um vírus de influenza ocorre no mundo, e que um surto severo de um vírus atinge a humanidade a cada 30 anos aproximadamente. Então, a pandemia de agora já estava prevista e, mesmo atrasada, acabou chegando no final do ano passado.

Acerca ainda do vírus que surgiria no mundo, a mesma revista “Vaccine” já alertava que ele se espalharia rapidamente pelo mundo. “Acontecerão várias ondas de infecção. A morbidade será abrangente em todas as idades e haverá interrupção de atividades sociais e econômicas em todos os países. A enorme mortalidade será evidente na maioria das faixas etárias, para não dizer em todas. É improvável que os sistemas de saúde consigam lidar adequadamente com a demanda de assistência médica, mesmo nos países mais desenvolvidos em sentido econômico”, escreveu a publicação, que lida hoje parece ter sido escrita há poucos dias, descrevendo exatamente os efeitos da Covid-19.

Em se tratando de suinocultura, em julho de 2017, um estudo de nossa autoria encomendado por uma grande indústria alemã, que teve como foco o mercado da carne suína brasileira, mostrou que observadas as exportações de 2016 e do primeiro semestre de 2017, a China passaria a propiciar uma oportunidade gigantesca para a suinocultura brasileira, e que isso levaria à uma redução na participação do então maior importador, a Rússia, o que acabou se confirmando em 2018, até porque em setembro daquele ano o vírus da Peste Suína Africana (PSA) foi detectado em suínos de subsistência da China, e os chineses passaram a elevar as importações de carne suína, intensificadas em 2019 e mantidas em um patamar exponencial ao longo do primeiro trimestre deste ano.

Ou seja, ainda na metade de 2017 destacávamos que o crescimento nas exportações brasileiras em 2016 se devia justamente ao desempenho do mercado da China, que passara de apenas 5,2 mil toneladas importadas em 2015, para 87,8 mil toneladas em 2016, um acréscimo substancial de 1.582%. É claro que alguma coisa passava a influenciar nas importações dessa proteína animal pelos chineses.

Dessa forma, podemos observar como o mercado se movimenta muito rapidamente, e que precisamos gerir nossos negócios com uma visão mais ampla, além do óbvio, fazendo uma leitura mais profunda dos acontecimentos acerca do que impacta a nossa vida e os nossos negócios. Precisamos aprofundar nossas análises e não ficarmos baseando nossas decisões em qualquer informação que recebemos desse ou daquele amigo ou contato, e até compartilhando informações distorcidas, leituras equivocadas e notícias falsas, as chamadas “fake news”.

Não podemos ser manipulados pelos oportunistas de plantão, que usam as oportunidades de negócios apenas para trazer benefícios à si, não para quem produz. E em momentos de grave crise, jamais dedicar nosso tempo para pensar de maneira simplista e amadora.

O mundo está mudando muito rapidamente. Até o grande perderá algo, o médio pode se apequenar, mas é certo que o pequeno que estiver despreparado, desinformado e desunido desaparecerá. E para que isso não ocorra, ele precisa tomar medidas na base da cautela e não acreditar em tudo que ouve e vê. Deve buscar ajuda em seus pares, para juntos pensarem nas soluções dos seus problemas em comum. Este é um momento de união entre os produtores. É um momento de muitas análises antes de se tomar decisões, pois o que está em jogo não é apenas a saúde física, mas também a forma de como cuidamos da saúde financeira dos nossos negócios.

A pandemia trouxe um cenário complicado também para a suinocultura, pois o produtor está trabalhando com queda no consumo interno pelas medidas restritivas e de isolamento social, e ao mesmo tempo com o aumento dos insumos e redução do preço do suíno vivo. Mas o que não se pode esquecer é que a exportação de carne suína se mantém em alta, e isso deveria servir para aquietar o mercado interno, onde o principal fato continua sendo a especulação, o oportunismo dos que se beneficiam da falta de união dos produtores e do vazamento de informações sobre a formação de um preço que seja suficiente para as necessidades do produtor.

Por fim, a extensão da quarentena em todo o mundo e os efeitos que causam na economia global deixam o cenário ainda mais intensa e severamente incerto, exigindo que os negócios tenham de ser ainda mais certeiros. Não se pode errar! O produtor precisa controlar os estoques, segurar as vendas e acompanhar os demais nas negociações e formação de preços, garantindo um valor que cubra seus custos de produção e deixe alguma margem de lucro. Não é uma tarefa fácil, e nem há uma fórmula certa, mas é nisso que o produtor precisa se focar neste momento, porque os grandes grupos já travaram suas vendas, compraram seus insumos e garantiram suas margens.

Mais do que qualquer coisa, precisamos estar conscientes de que já vivemos um novo cenário de crédito que será cada vez mais escasso frente a tantas incertezas. É preciso trabalhar com margem de segurança, escolher parceiros sólidos e tocar a comercialização dos produtos de forma muito eficiente. Do contrário, seremos descartados pela crise de um vírus cuja presença já era esperada, apesar de indesejada!

(Artigo de autoria de Cesar da Luz, jornalista, bacharel em Direito, palestrante e escritor, Diretor dos Grupos Paraná Mais e C.Agro Consultoria e Assessoria no Agronegócio)

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